Em artigo do JP, Zé Reinaldo desmascara elefantes brancos e projetos mirabolantes que só trarão mais prejuízos aos cofres do Brasil…
Acordo
Brasil e China e Ferrovia para o Pacífico, pelo deputado federal José Reinaldo
Tavares
Dentre
os muitos assuntos que formam a pauta do acordo assinado entre os presidentes
do Brasil e da China na semana passada sobressai um projeto ferroviário que não
interessa ao Maranhão. Trata-se de uma ligação da Ferrovia Norte-Sul em
Campinorte (GO) até um porto no litoral peruano às margens do Oceano Pacífico.
Essa
ligação é cara e dificílima de executar, pois atravessa pântanos, áreas
indígenas, florestas e a Cordilheira dos Andes. Ademais, não há estudos
aprofundados, nem projetos de engenharia e tampouco estudos de viabilidade.
Dessa forma, essa empreitada terá pela frente problemas ambientais e de
engenharia e só há uma certeza: será caríssima, com custo estimado em torno de
dez bilhões de dólares, ou seja, entre trinta a quarenta bilhões de reais. E
isso é apenas um uma estimativa, pois sem projeto de engenharia e sem estudo de
viabilidade econômica é impossível ter certeza do quanto realmente custará. Sem
esses itens é praticamente impossível levar a sério tal projeto e vejam que só
o custo para elaboração desses estudos girará em torno de um bilhão de reais.
Agora
me digam: esse projeto é afinal importante para o Brasil? Valeria à pena o país
se endividar ou reprogramar recursos de outros projetos muito mais importantes,
a fim de ficarmos só na logística, e para nos metermos na aventura chinesa? De
jeito nenhum!
Muito
melhor seria fazer a ligação já aprovada pelo TCU de Lucas do Rio Verde, em
Mato Grosso, coração do centro produtor de grãos do Centro-Oeste, com
Campinorte (GO), na Ferrovia Norte-Sul e daí com a Ferrovia dos Carajás e,
consequentemente, com o Porto do Itaqui e o Termial de Grãos – TEGRAM, tudo já
pronto e funcionando. Dessa forma, pelo Porto do Itaqui via Canal do Panamá, em
obras de ampliação, chegar até os portos chineses com o menor custo possível.
Só
se explica o anúncio desse projeto pela completa desorientação do governo, que
parece totalmente perdido e no afã de tentar dar boas notícias. Acaba parecendo
mais um factoide, aliás, com factoides já temos amargas experiências, pois
temos um aqui no Maranhão – a badalada Refinaria Premium – também lançada por
um presidente do Brasil, uma triste lembrança.
Resultado
disso é que a notícia foi recebida com ceticismo pelos especialistas, pois para
estes, o custo estaria abaixo do real e só poderia ser definido com a
realização dos estudos, levando em conta principalmente os desafios de
engenharia que o projeto comportará. Considerando isso, temem que essa
iniciativa nunca saia do papel, como tantas outras.
Na
avaliação de Renato Pavan, membro da consultoria Macrologística, esses
obstáculos naturais elevam o custo do transporte. Ele comparou o custo de
exportar uma tonelada de soja do Mato Grosso até os portos chineses por
diferentes caminhos e concluiu que a soja transportada por ferrovia até o Peru,
e de lá para a China, teria o mais elevado custo logístico entre todos, que
seria da ordem de 325 reais por tonelada. É por isso que afirmo ser o Porto do
Itaqui a opção mais barata, com custos que certamente ficariam abaixo dos 135
reais por tonelada. Esse foi o valor estimado por Pavan para levar a soja pelo
Pará, por um trecho da Ferrovia Norte-Sul entre Açailândia e Vila do Conde
(PA), trecho que nem existe ainda.
Com
efeito, Pavan conclui que a ferrovia para o Peru não tem a menor possibilidade
de vingar. Outros especialistas chegaram à mesma conclusão, tais como Rodrigo
Vilaça, presidente da sessão ferroviária da Confederação Nacional de Transporte
(CNT); Paulo Fleury, presidente do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS)
e Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Logística da Fundação Dom
Cabral. Portanto, há praticamente uma unanimidade entre os especialistas.
É
impressionante a alienação do governo federal, passando a admitir levar a sério
um projeto como esse, ao invés de investir para aprimorar a rota existente, com
recursos para melhorar a sua operacionalidade e os portos da região, do qual o
mais importante é o Itaqui.
Não
bastasse isso, outra coisa me preocupou: nenhum dentre os especialistas citados
aqui se referiu ao Itaqui e sempre à Vila do Conde (PA), um porto que, no
cotejo com o Itaqui, quando da construção da Ferrovia dos Carajás, se mostrou
inferior ao nosso e foi uma das causas pela escolha da ferrovia ficar no
Maranhão, enquanto o minério fica no Pará.
E
optam por um trecho ferroviário que hoje não existe em detrimento à Ferrovia
dos Carajás, a mais moderna e eficiente do Brasil, já existente e em
funcionamento.
Creio que as autoridades maranhenses do setor de
transporte e logística deveriam procurar esses especialistas e mostrar a
excelência do que temos aqui – já operacional – entre ferrovia e porto



